16 de jun de 2011

Eu nunca digo que vou mudar. Eu nunca mudei, e não foi porque eu não quis. É simplesmente porque esse sou eu, e qualquer esforço em não me ser seria, por si só, uma traição. Mesmo que pudesse voltar no tempo, mesmo que pudesse fazer tudo de novo, todas as desventuras que vivi levar-me-iam ao mesmo agora. E eu jamais estive tão apegado ao presente. Jamais estive tão alerta, tão atento, tão sedento pela luz do sol e, principalmente, por essa não-luz da noite, que a muitos assombra e, a mim, inspira. Eu vejo em cada uma dessas esquinas dobradas um novo horizonte, uma nova página para escrever com meus desastrados passos. Quando deito na cama para ler o livro dos meus dias, invariavelmente encontro nas minhas frases sem concordância os maiores acertos. E foi escrevendo um desses parágrafos rasurados que te vi errando também. Mas tinhas a capacidade de escrever sem olhar pras mãos. Olhavas pra mim, do outro canto daquela sala. No entanto, com hercúleo esforço, superei minha curiosidade e todos os meus mais primitivos instintos, para conseguir esperar o forte, intenso e último toque que a tua caneta deu naquela folha branca. Então eu comecei a escrever compulsivamente, extrapolando os limites do papel, riscando mesas, sofás, tapetes, inclusive o chão, até que minha caneta alcançou o teu papel. A página está totalmente em branco, e podemos escrever nela o que quisermos.

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